Publicado por: quemresponde | Outubro 20, 2008

Do Pequeno Príncipe

Porque queria uma família, um carro e uma casa. Era brasileiro, jovem e tinha três empregos. Ela, a menina mais bonita.

Já não o queria.

Decidiu seqüestrá-la e, na ironia própria do desespero, quedou ainda mais refém de si mesmo.

Entornado o caldo da realidade, seus anjinhos discutiram. Venceu o anjinho mau quando a polícia entrou com um estouro.  Uma bala atravessada  no crânio de quem uma vez amada. Uma bala ferindo a amiga também refém. Do lado de fora ouvem-se os tiros.

Sem Rosa, sem nada, tornara-se o Príncipe da tragédia em seu pequeno planeta. Prenderam-no.

Publicado por: quemresponde | Outubro 14, 2008

Da adaptação

Porque é mesmo nas gentilezas cotidianas que nos apoderamos da estupidez inócua, como se pudéssemos plantar o colorido em corpos sem elan, aproveitando o vazio para insistir em novas estéticas de existência.

Fotografia: Renata Kroeff

Publicado por: quemresponde | Outubro 2, 2008

Da insegurança

Porque busquei entender um dedinho das tuas olhadas e do teu riso fácil, mas fiquei no vácuo. Atendias ao que era mais instantâneo na tua forma de encarar o presente: confeccionando vagas de horizontes que não me pertenciam.

Como se não me visse parado em frente à tua costura íntima, atinei de revolver os dedos e procurar por minhas chaves,  querendo, no gesto ordinário, parecer incólume.

Tombei embaralhado; aberto por não te entender – e me retive. No instante seguinte te colocaste diante de mim, tu e os mistérios todos, como querendo pronunciar, mas eu, mendigo dos teus sinais,me antecipei:

- Por onde andaste?

Tua boca rosadinha, Meca dos meus desejos, sorriu uma entrelinha desdenhosa:

- Nada. Observando a liturgia da aflição.

E proclamou, juíza:

- Não te preocupa. Quero entender o que é da minha sede e que é da tua água.

Eu também queria, mas esqueci de chaves e voltei a aferrolhar desatinadamente, empilhando cadeados sobre tua imagem.

Jamais aceitaria o naufrágio solitário.

Foto: Renata Kroeff

Publicado por: quemresponde | Setembro 18, 2008

Da oralidade

Porque as bocas devoram o que é do instinto, engolindo o símbolo, impelindo na goela o elo. No talo e na musa o felar assume-se fala. Línguas engolfam glandes; não se eximem dos interstícios de saliva e gozo  -  de fluídos ínfimos a correntezas.

E, no cerne do ato, apenas a certeza do desejo anistiado, quando gerar-se, em última instância, torna-se impossível.

Publicado por: quemresponde | Setembro 16, 2008

Da resignação

Porque observara a cela construída com suas costelas. Cada pedaço de sua prisão cabia em átimos de percepções sobre a própria vida. Não houve chance para que cobrasse dos seus as rimas que perdera. Continuava ladrando nas mesmas dimensões, nos mesmos moldes, naquela amálgama em que fora constituído. Fora isso, seus rituais não deixavam escapar brisa que fosse sem a reiteração de ganidos insuficientes. Colava as palavras como um asilado em seu próprio onirismo, como barras de metal em um canil. Jamais voltou ao céu e agora não importava, o olhar constituia o cinza do entorno e mesmo o sonho era apenas mais uma instância fossilizada.

- Menos que um osso,

concluíra.

Foto de Helder Mendes

Publicado por: quemresponde | Setembro 15, 2008

Do tema

Pois TUDO o que me dizes ou cantas
caberá no ventre do poema
- mesmo um ovo entalado na garganta
e a implicância do entalar na gema -

Publicado por: quemresponde | Setembro 11, 2008

Da independência

Kryžių Kalnas, a 12km de Šiauliai, Lietuva (Lituânia)

 

Porque abriram fogo na intimidade nossa e de nossos pares, abusando da  lâmina do poder para retalhar o labor de mãos nuas (nunca se importaram com a aspereza e calos visíveis em nossas falanges).

Porque estamos cansados do estupro cotidiano e dos olhares limitantes, preocupados em atirar pedras pérfidas na diferença de nosso olhar - eles, que sequer têm nome e insistem em rotular, que apenas uma cruz não basta para a redenção. 

Porque precisam de uma resposta, e aqui está ela: o pecado, meus caros, é não cometer pecados, pois sem a âncora do estrume inexiste a possibilidade da flor.

Publicado por: quemresponde | Setembro 9, 2008

Da cumplicidade

Porque o velho policial entendeu, quando entardeceu, que estava livre e que seu trabalho ali havia terminado. Voltou seus olhos, assim, para sua companheira de vida toda e entendeu sem pestanejar a nova labuta que se iniciava.

Consta que persistentemente aprendeu a tecelagem, ofício que ela desde sempre dominara. Todas as noites frias desde então têm sido pretexto para a fiação do tecido da confiança em fios de trama e de urdume. Pois deste modo alinham-se, marido e mulher, na abertura da cala e na inserção da trama.  

Quando o pente é batido, renova-se o ritual.

E assim se dá, na cumplicidade do tear, o artesanato mútuo dos destinos.

Publicado por: quemresponde | Agosto 29, 2008

Da entrega

Porque para inaugurar-se dentro do humano a entrega precisa ser constituída de múltiplas entregas menores. Exige desconstrução plena, imposição de uma abertura visceral, para além da nossa secura cotidiana egoísta. Exige dizimar nossas micro-resistências em seus blocos infindáveis e desmembrá-las peça a peça, fazendo com que a aceitação do vazio seja antes arrebatamento e nunca falta – mesmo quando esta então miragem perfeita.

Publicado por: quemresponde | Agosto 29, 2008

Da piada

WANTED ALIVE

Porque a morte dele não teve

graça nenhuma.

..

Maiores informações em PIADA MORTAL

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