Publicado por: quemresponde | dezembro 16, 2009

Da Filosofia

Foto: autor desconhecido

Porque o meu amor gosta de filosofia. Mas não tanto. Não tanto que doa. De preferência com anestesia – uma cerveja ou vinho. Tentei pensar as coisas do mundo a partir de seu mundo e não pude: ele é descomplicado demais pra ficar levantando questões. Não fica perguntando todo o dia o sentido de si ou das coisas. Mas também não lhe venham com catolicismos, sim, que logo uma saraivada de argumentos aparece e nos conta sua aversão pelas traquinagens da igreja. Se bem que pode montar um altar pelo dia dos mortos sem problema, o que importa é o ritual.

*
Afinal de contas, meu amor anda pela vida a construir sentidos, descomplicados e sentimentais. Pode adotar o primeiro cachorro abandonado que se vê na rua ou gostar de velhinhos, dançar desatinadamente por toda uma noite ou escutar piadas com ou sem graça. Mas não importa a piada, ela vai sorrir. Então vem o mistério: ainda não compreendo como pode querer filosofar por trás daquele sorriso magnífico, que destrói com toda a dúvida do mundo!

*

Ainda viajará pelo mundo e acabará numa ilha.

*

(espero que comigo…)

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Publicado por: quemresponde | novembro 30, 2009

Da essência

Porque não entendia como o sândalo e todas essas árvores cheirosas desdobravam um olor delicioso quando cortados brutalmente. Árvores são estúpidas, ele pensou. Quantos sândalos serão precisos para extraír uma essência? Quantos cortes? Quantas vezes derrubar? Tudo em nome da essência!

Enraivecia.

Como lenhador, já estava velho. Faltavam-lhe braços e já não conseguia mais pensar em essências. Queria aqueles detalhes do cotidiano que ele perdia todos os dias cortando suas árvores para a mesma e sempre essência. Entendia a vida através das metáforas que criara durante anos de trabalho.

Cada árvore cortada, uma árvore diferente, sempre pensava. Quem sabe fizesse referência aos milhares de instantes que compõem a existência. Talvez, se tivesse lido Heráclito, não teria tido o esforço. Mas pensava nas banalidades boas da sua vida. Um trago no clube era bom – também o alívio do xixi. Algumas rodadas de piadas, as mulheres com quem andou, amigos que iam e voltavam. Essas eram as coisas boas. Tinha todo seu porão de momentos ruins, mas esses ele tentava esquecer. Só ás vezes não conseguia.

Olhou o relógio e percebeu que já era hora de parar de trabalhar. Olhou pra si mesmo e percebeu que já estava esgotado da extração de essências. Daqui a pouco seria noite.

Guardou seu machado e foi lavar as mãos.

Publicado por: quemresponde | agosto 5, 2009

Do Marco

Porque um instrumento antes vagabundo, agora é de fino trato. Porque hoje há um público que escuta atentamente, como se ouvisse uma mini-orquestra.

Porque alguns são responsáveis por isso, mas Segóvia é definitivo.

Publicado por: quemresponde | julho 28, 2009

Do Crime

Bony and Clyde

Bony and Clyde

Porque um dia decidiram virar parceiros de crime – desses que não falam nem sob tortura e que desatam a rir da vida, como se fosse um grande circo. Sabiam que parceiros de crime eram cúmplices no sentido mais vandálico da palavra.

Precisariam confiar no implausível: da respiração ofegante  à insegurança brutal.

Porque desde o primeiro assalto o mundo passou a ser um grande banco – com jóias, e ouro, e dólares, e mesmo com um gerente com cabelo parafinado muito bem vestido rentabilizando até mesmo a linha do horizonte. Assim não tardaram a pensar em um plano genial.

Noites e noites imaginando rotas de fuga e falhas nos sistemas de segurança. Observaram as rotinas, o pequeno do cotidiano. Zombaram das portas com detector de metal. Queriam a combinação do cofre.

Até que, em uma das tantas noites de olhares blindados um-no-outro, rascunharam o plano final, o assalto preciso – o golpe de mestre!

E daqui a cinco meses algumas testemunhas dirão ter ouvido alguma coisa durante a noite.

E eles já estarão longe.

Prontos para o próximo assalto.

Publicado por: quemresponde | julho 9, 2009

Da Botinha do Amor – Da Paráfrase

Porque todas as Botas de Amor são ridículas. Não seriam rídículas se não fossem Botas de Amor. Porque as Botas de amor, se há amor, têm de ser ridículas.

Mas afinal, só as criaturas que nunca fizeram Botinhas de Amor, é que são ridículas.

Foto de Rodrigo Justo Duarte

Foto de Rodrigo Justo Duarte

Publicado por: quemresponde | julho 9, 2009

Do Incansável

Eu te amo e te desejo
[00:45:57] Cassio diz: interminavelmente
[00:46:05] Cassio diz: na totalidade da pele
[00:46:11] Cassio diz: na gengiva
[00:46:15] Cassio diz: até os dentes
[00:46:26] Cassio diz: Eu te amo e te desejo
interminavelmente
[00:46:42] Cassio diz: e desato a sentir
[00:46:50] Cassio diz: como só os estúpidos sentem
[00:46:52] Cassio diz: Eu te amo e te desejo
interminavelmente
[00:46:57] Cassio diz: porque me fulminas
[00:47:03] Cassio diz: corpo, alma e mente
[00:47:06] Cassio diz: Eu te amo e te desejo
interminavelmente
[00:47:15] Cassio diz: como se o paraíso fosse, assim,
[00:47:19] Cassio diz: uma condição permanente
[00:47:20] Cassio diz: Eu te amo e te desejo
interminavelmente
[00:47:31] Cassio diz: porque me fazes inteiro
[00:47:35] Cassio diz: mesmo que te ausentes
[00:47:38] Cassio diz: Eu te amo e te desejo
[00:47:42] Cassio diz: Eu te amo e te desejo
interminavelmente

Porque eu te amo e te desejo

interminavelmente

é que me entranho em tua pele,

em tua gengiva – até os dentes

Porque eu te amo e te desejo

interminavelmente

é que desato a sentir

como só os estúpidos sentem

Porque eu te amo e te desejo

interminavelmente

é que tombo quando me fulminas

corpo, alma e mente

Porque eu te amo e te desejo

interminavelmente

vejo como se o paraíso fosse, assim,

uma condição permanente

E porque eu te amo e te desejo

interminavelmente

é que me fazes inteiro

mesmo quando ausente

Por isso, e cada vez mais,

eu te amo e te desejo

interminavelmente

– mesmo que entre nós

exista um continente

e nisso acredito incansável

quando me disseste, inconseqüentemente

depois de um beijo: eu também te amo

e te desejo

interminavelmente

Foto de J.V.J. Ribas

Foto de J.V.J. Ribas

Publicado por: quemresponde | julho 6, 2009

Do Retorno

Porque a distância é sinuosa e dilacerante, uma criadora de sulcos e exílios.

Apenas não suporta a persistência dos amantes.

Torna-se inocente e tola – quando ao menor confronto com  a potência dos desejos.

Desintegra-se – frente à exposição ácida de uma verdade amorosa.

Monterrey, México - Foto da Nasa

Monterrey, México - Foto da Nasa

Publicado por: quemresponde | março 27, 2009

Da escafandrista

Porque quanto mais nosso mundo está mergulhado dentro do escafandro 
(como flores de labirintos e enigmas encantados)
mais nos encontramos imersos nas clausuras ocêanicas entre o eu e o outro.
*
E porque nos percebemos implacavelmente submersos,
ficamos assim, tão à deriva.
escafandrista
Foto: Veronique Isabelle – TE AMO motherfucker 😀
Publicado por: quemresponde | outubro 31, 2008

Da tensão

Porque o humano é esse encalacrar-se, esse jogo de tensões percebidas na dimensão do agora.  Sufocado em necessidades e ânsias, atropela e desaba em frente ao outro, em frente ao si-mesmo descortinado na urgência do mundo. Descontrola-se na inconformidade e no que é disformia inata da homogeneidade, apesar de mesmo assim conseguir gozar dentro desse espaço pressurizado. Como sistema e tema da parte e do todo o existente sucumbe, vítima e algoz de sua própria construção, para re-existir no instante seguinte (re)constituído dentro de outro plano de forças, onde ressurgirá intrusivo/extrusivo, multivetorial, encalacrado na perenidade de ser humano.

Foto: Henri Cartier-Bresson

Publicado por: quemresponde | outubro 29, 2008

Do encantamento

Fotografia: Flavio Damm

Porque sabia que no manejo da fala residia sua destreza – na trova, na conversa a desfiar, no pregão que recitava quando em chamar freguês. E vira na dona transeunte um par de olhos tão recatadinhos que perguntou se não tinham sido colhidos do pé da jaboticabeira. No que ela sorriu e lhe deu toda a atenção, esparramou-se em um gesto largo e na dissertação do sorriso espontâneo fez seu equilíbrio.

Quedaram-se na muvuca da feira, assim, um-ao-outro, avulsos no instante do encontro como uma ode ao encantamento.

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